Tecnologia Quântica: oportunidades, competitividade e segurança na próxima década
A tecnologia quântica desponta como uma das áreas mais promissoras da inovação, com potencial para transformar setores da economia e gerar trilhões de dólares em valor até 2035. Diante da aceleração de seu desenvolvimento, líderes empresariais já reconhecem que sua chegada poderá ocorrer antes do previsto e começam a investir para conquistar vantagens competitivas.
Essa tecnologia compreende três pilares principais: computação quântica, comunicação quântica e sensores quânticos. Cada um oferece possibilidades distintas, desde o processamento de problemas complexos até a transmissão segura de informações e a realização de medições de altíssima precisão. Na computação, os avanços poderão impulsionar a descoberta de medicamentos, o desenvolvimento de novos materiais, a otimização de processos industriais e a modelagem financeira.
Segundo estimativas do Quantum Technology Monitor 2026, da McKinsey, a computação quântica poderá gerar entre US$ 1,3 trilhão e US$ 2,7 trilhões em valor econômico mundial até 2035. Esse potencial tem estimulado empresas a estabelecer parcerias com fornecedores especializados, experimentar aplicações e desenvolver competências internas. Mais de 300 organizações no mundo já trabalham com provedores de tecnologia quântica, indicando que o tema deixou de ser exclusivamente acadêmico e avança em direção à exploração comercial.
Um marco decisivo será a chegada da computação quântica tolerante a falhas (FTQC), capaz de executar cálculos quânticos confiáveis em escala. Embora o cronograma ainda apresente incertezas técnicas, os avanços e as ambiciosas metas de desenvolvimento das empresas do setor exigem que as organizações planejem suas estratégias com antecedência. A questão central já não é apenas se devem investir, mas em quais tecnologias, em que proporção e em qual horizonte de tempo.
Entretanto, essa evolução apresenta um risco significativo para a segurança digital. Computadores quânticos suficientemente poderosos poderão quebrar determinados sistemas de criptografia de chave pública utilizados atualmente na proteção de transações financeiras, comunicações e informações confidenciais. Esse momento, conhecido como Q-Day, poderá comprometer infraestruturas digitais essenciais. Por isso, mesmo empresas que não utilizem diretamente a computação quântica precisarão avaliar suas vulnerabilidades e preparar a migração para soluções criptográficas resistentes a ataques quânticos.
A velocidade dessa transformação ainda depende de obstáculos tecnológicos, custos, disponibilidade de equipamentos e capacidade de expansão. Contudo, esperar por uma maturidade comercial plena pode representar uma desvantagem estratégica: parcerias, profissionais especializados e propriedade intelectual necessários para aproveitar as oportunidades podem ser conquistados antecipadamente por concorrentes mais ágeis.
Para o Brasil, acompanhar essa evolução é fundamental. A cooperação entre empresas, universidades e centros de pesquisa, aliada à formação de profissionais e ao investimento em inovação, poderá ampliar a participação nacional nesse mercado emergente. O Brasil já desenvolve iniciativas relevantes em tecnologia quântica, envolvendo órgãos governamentais, universidades, centros de pesquisa e empresas. As principais frentes abrangem computação quântica, sensores de alta precisão, comunicações seguras e formação de profissionais. Entre as iniciativas que merecem destaque estão as seguintes:
- Programa QuTIa — FAPESP
- Rede Hermes Quântica e Rede Rio Quântica
- QuIIN — Centro de Competência em Tecnologias Quânticas (Senai Cimatec)
- Laboratório de Tecnologias Quânticas — CBPF/MCTI
- INCT de Informação Quântica (INCT-IQ)
- INCT em Dispositivos Quânticos (INCT-DQ)
- Projeto Aurora e tecnologias quânticas para Defesa
- Rede Quandanga de Comunicação Quântica
Nesse cenário, instituições de ciência e tecnologia (ICTs) credenciadas pela EMBRAPII, como o LSI-TEC (Laboratório de Sistemas Integráveis Tecnológico), podem desempenhar um papel relevante na transição para a era quântica. Embora a computação quântica ainda esteja em fase de amadurecimento, os riscos associados ao Q-Day já afetam o presente: dispositivos de Internet das Coisas (IoT), sistemas embarcados e soluções de Indústria 4.0 costumam ter ciclos de vida longos e dependem de criptografia de chave pública para autenticação e proteção de dados. Isso torna essencial que fabricantes e desenvolvedores projetem desde já produtos “cripto-ágeis”, capazes de migrar para algoritmos resistentes a ataques quânticos. Com experiência em desenvolvimento de hardware, software e IoT, e com o modelo EMBRAPII de cooperação entre ICTs e empresas, o LSI-TEC está bem posicionado para apoiar a indústria nacional nessa nova tecnologia, seja na avaliação de vulnerabilidades, seja na prototipagem de soluções seguras. Essa atuação pode ainda se articular com iniciativas já em curso no ecossistema EMBRAPII, como o Centro de Competência em Tecnologias Quânticas do Senai Cimatec (QuIIN), contribuindo para levar os avanços da pesquisa quântica ao mercado.
A tecnologia quântica deve ser tratada como prioridade estratégica, combinando a exploração de oportunidades econômicas com a preparação para os riscos de segurança. As organizações que começarem a agir hoje estarão mais bem posicionadas para inovar, proteger seus ativos digitais e construir vantagens competitivas sustentáveis na próxima década.
Esse artigo foi baseado na seguinte publicação da McKinsey: https://tinyurl.com/yjm9585r